O zumbido
Hoje faz XXX dias que identifiquei o zumbido. No meio da manhã acordei com um ruído alto. Talvez um aparelho ligado. Procurei a fonte do ruído no apartamento e na varanda, até perceber que ele vinha de dentro. O som combinado de válvula de TV antiga com turbina de avião em solo estava lá, no interior de meus ouvidos. Não preciso ou não quero ou não sei se sei descrever a angústia das primeiras horas. Entrei em luto. O silêncio irremediavelmente perdido. Um minuto de silêncio pela morte do Silêncio.
Desde então, convivo este companheiro inseparável, o zumbido. Que às vezes desaparece entre sons de passarinhos, carros, gaivotas e risos de crianças nesta tranquila aldeia de 18 mil almas, lugar que escolhi pelo mar, pelos pássaros, pelo silêncio. Achava que ia escrever mais, cozinhar mais, pensar mais, caminhar na praia mais, fazer coisas mais. Aí percebo que o mais, como o mar, está além do que somos, além de onde estamos. Mais é muito. Mas mais é também menos. Menos concentração.
Chumbei no doutorado. O zumbido é alto, debilitante. Desisti aos poucos, mais debilitado a cada aula. O zumbido instalou-se, arrumou a cama do seu jeito preferido, come com tranquilidade e é certo que lê e escreve melhor que eu. Às vezes consigo ignorá-lo. Quando converso com meu filho, escuto música, vejo um filme ou um telejornal. A aparente tranquilidade com que encaramos a solidão é desafiada quando a cabeça é uma panela de pressão.
Com tempo e com pílulas o zumbido é admitido em nossa vida. Hoje percebo que o zumbido esteve sempre ali, que me acompanha desde pequeno, quando morava no interior da Venezuela, os grilos dormiam e o silêncio doía. Parece ter cansado de ser ignorado. Quer toda a minha atenção. Há cerca de 10 anos tive uma otite severa, tive que ser sedado com morfina. O zumbido pode ser a volta de um problema auditivo.