sábado, 31 de outubro de 2015

RIP

Antonio Vieira dizia coisas engraçadas, como "jazz é um monte de sons pequenininhos, separadinhos, que fazem sentido" ou "tu é socialista porque nasceu na Amazônia, desconhece escassez", entre outras observações lúcidas/bizarras sobre vida, religião, economia e o algo mais e era exatamente por esse motivo que conseguíamos manter aqueles diálogos notáveis entre liberalismo e socialismo, quando atribuía meu bem-estar a Adam Smith, e claro que pensei sobre isso no sétimo andar daquele hotel no estrangeiro, quando soube que ele havia morrido e parei estupefato diante da janela a pensar que trocaria sem pestanejar a vida de meu amigo pelas 150 vidas de jovens, crianças, velhos, animais e plantas da praça lá embaixo, sim, dezenas de vidas por uma injustamente retirada do palco de nossa única e solitária existência nesse planetinha, sabia o ateu Antônio, agora novamente poeira de estrelas, reintegrado à terra, de onde saímos bilhões de anos atrás nalguma forma primitiva e ordinária até redundar no ser humano e seus feitos extraordinários, seus equívocos letais, suas personalidades brilhantes, e uma vez morto, não pode ser trocado pelas vidas inocentes da praça, plano abortado e me assalta a conhecida sensação de não estar presente ao enterro de amigos, por perambular ou morar longe e por isso não vi mortos nem meu cunhado, nem o Mário, nem o Simões ou o Laucides, somente Feutmann e dias antes ou depois, Murilo e Zequinha, enterrados no mesmo horário em cemitérios diferentes, e todos se foram e tornaram salas mais tediosas, conversas menos densas, o ar menos envenenado por ideias malucas e minha geração acossada por um Brasil polarizado entre o coxinhismo e o setentismo pré-revolucionário, eterna vítima de auto-indulgência, insensível ao cheiro de podre que vem da televisão, ex-indústria cultural, hoje cultura bacteriológica, produtora de autômatos que recitam coisas do tipo "é isso mesmo, produção?" ou "concerteza", nessa inexplicável amálgama de niilismos yuppies, ruralistas, reacionários, religiosos, racistas, catequizadores, manipuladores e toda sorte de lunáticos dispostos a desinstalar o Iluminismo, jogar de vez tudo fora, quando sobrevém a certeza de que o tempo só é vencido pela fotografia, como a dos tênis na varanda em respeito à "imaculada brancura" do chão de minha sala, que Antônio criticava sob vieses nipônicos e escandinavos mas curtia o fato de não ser um piso xadrez, o que lhe obrigaria a caminhar em diagonal como um alucinado Bispo/Jack Nicholson, sem pisar nas duas cores, para no final disparar uma piada nova e fazer rir Yonara, que mencionou a passagem do aniversário dele e me faz lembrar de todas as nossas conversas sobre o tempo que passa: nosso tempo.

domingo, 18 de outubro de 2015

Listen like thieves

http://m.jb.com.br/pais/noticias/2015/10/17/nova-denuncia-acusa-odebrecht-de-pagar-r-138-milhoes-em-propina/?from_rss=None

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Os Educadores

Hoje é dia do professor. Uma profissão cuja retórica geral reputa como importante. Na Câmara dos Deputados houve vários pronunciamentos. Na mídia, muito dinheiro investido pelo governo em propagandas institucionais. Nas escolas e universidades, homenagens, salgadinhos, pequenos discursos de auto-estima, tapinhas nas costas... Mas o que significa realmente esta data? O Brasil acaba de passar pela maior greve da educação na história. Foram 140 dias com universidades sem aula. Professores de norte a sul protestaram contra as condições de trabalho. Exigimos valorização salarial de carreira estruturada. Fomos tratados com total indiferença pelo Ministério da Educação. Nossos atos em Brasília foram reprimidos pela polícia, que atacou com cacetetes e bombas de gás professores, professoras e estudantes. Enquanto isso, a sociedade assistia tranquilamente sua novela, seu futebolzinho, seu programinha de polícia onde pode concordar com apresentadores ignaros que os problemas sociais serão resolvidos com a redução da maioridade penal. Também teve tempo de avaliar nas poucas e deturpadas notícias sobre a greve que professores são irresponsáveis vagabundos sem- vergonha que prejudicam a nação. Preocupada com as ameaças de impitimam, a presidente ignorou o caos na educação para cuidar do próprio cargo. Em resumo, assim é tratada no Brasil a atividade mais respeitada no Japão. Que este Dia do Professor por aqui seja o primeiro em que esta profissão retome seu papel, recupere suas forças e resgate sua honra. Os educadores estão vivos.

sábado, 10 de outubro de 2015

Um som

(Finis Africae - Ask the dust)
Atendendo a tua desilusão
Atendendo a tua desilusão
Roubaram as cores do meu reino
Roseiras murcharam no jardim
As dores aumentam no meu peito
Teus olhos são tão cruéis pra mim
Povos esqueceram suas lendas
Fendas se abriram pelo chão
Flechas de fogo incendiaram tendas
Atendendo a tua desilusão
Monges abandonaram templos
O vento não sabe aonde ir
Pararam teus movimentos
Teus pés, já não pisam mais aqui
Teus pés, já não pisam mais aqui
Atendendo a tua desilusão
Atendendo a tua desilusão

Satanistas são clientes insatisfeitos.