quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Não é rotular, nem ideologizar. A oposição socialismo x capitalismo tem erro de natureza do julgamento. Não se trata de moeda, mas de outros valores que uma certa leitura/agenda liberal não encontra tempo (tempo é dinheiro) para refletir. O conceito de América Latina é mais complexo que uma nota do Radar:  não dá conta de que transformações culturais são mais importantes que crescimento econômico. O ser humano não precisa de dinheiro, precisa de Tecnologia. Inclusive na política. É bom que os dois lados, esquerda e direita, se acostumem à tecnopolítica. É o que farão no momento em que socializarem as ideias, o conhecimento, a lógica. Isso está além de sustentar um mercado fictício que não tem outro destino além da quebra. A sociedade é, naturalmente, socialista. Sem entrar no mérito político ou econômico. É um relacionamento, uma forma de convivência natural que surgiu do convívio. O capital é artificial e, pior ainda, fictício.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O cavalo mais bonito do mundo



Curioso com a imagem, busco informações sobre o cavalo mais bonito do mundo de 2013 e descubro uma história de glória e tristeza. Ele pertence a Kurbanguly Berdimuhamedow, presidente do Turcomenistão, e é um dos pouco mais de 3,5 mil cavalos Akhal Teke vivos: a raça está em risco de extinção. Criadores ao redor do mundo reproduzem-no para salvar a espécie. Kurbanguly Berdymukhamedow é dentista, doutor em Ciências Médicas, foi ministro da Saúde e coleciona cavalos. Eleito presidente em 2006, foi reeleito em 2012 com 97 por cento dos votos. Se isso parece pouco democrático, convém lembrar que o antecessor, Saparmurat Niyazov, passou 20 anos no poder e chegou a mudar os nomes dos dias da semana e dos meses do ano para homenagear poetas, militares e a própria mãe. Mudou o Juramento de Hipócrates para um juramento a si mesmo. Cancelou 10 mil aposentadorias durante crise econômica. Concursos de música e dança eram promovidos em sua homenagem cada vez que visitava as aldeias do interior do país. Proibiu ópera, balé e circo. Desviou 3 bilhões de dólares para contas no exterior e morreu no poder, mas sua cara ainda estampa cédulas de Manat, a moeda local.

O presidente atual desfez a maioria das excentricidades do ditador e goza de prestígio popular. Apesar de reduzir o culto à personalidade, ainda mantém características pouco ocidentais no trato democrático.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O homem
cada vez mais
des-homem
lobisomem
maquinomem
oferece holocaustos
ao deus Dinheiro
suplica 
irresolutamente
o fim da McFome
diante do clamor
o deus Dinheiro
parece estar sensível
e cada vez mais invisível
irresoluto, mente

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Venezuela, Guiana, Estônia, Barbados, Cazaquistão, Mongólia e outros 60 países estão à frente do Brasil em índices educacionais. Dois terços de nossos alunos de 5º ano não diferenciam formas geométricas básicas como círculos, triângulos e retângulos e 70 por cento dos estudantes no 3º ano do ensino médio não identifica a informação principal em uma notícia curta.
ENTRETANTO, quatro escolas públicas no interior do Ceará, Rio de Janeiro e São Paulo atingem índices de excelência superiores aos de Suíça e Canadá. Como conseguiram? Veja aqui.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

De agora em diante, meu perfil no Facebook será pura ostentação e a culpa é da Schirley Luft e de uma empresa que formatou meu HD por engano. Mais adiante digo porquê.

A perda de memória causa efeitos dolorosos, o que é estranho num brasileiro: povo que se lixa para tradições e memória histórica e só costuma lembrar do último Carnaval, quando lembra. A mídia não contribui com isso. Apenas comanda. Reedifica o Grande Irmão em programas feitos para se pensar que o que acontece ali é realidade. E vomita uma quantidade de "informação" calculada para o efeito amnésico. Aos domingos, a profusão de cores berrantes e os dois ou três estilos musicais determinam a "diversidade". Algaravia, mistureba de lixo pós-moderno, reciclado, tornado lavagem e empurrado goela abaixo de telespectadores gansos, logo transformados em foie-gras.

Recentemente, perdi dois HDs com cerca de 20 mil fotografias. A soma de backups em DVDs e na nuvem salvou cerca de 10 mil imagens. Programas de recuperação de dados escavaram mais 5 mil. Desapareceram definitivamente cerca de 5 mil fotos. A maioria dispensável, mas há pelo menos 500 perdas significativas, registros que jamais voltarão. Como há 10 anos em Minas Gerais, quando roubaram meu notebook repleto de imagens de família. Efeitos da vida digital que me tornaram mais cuidadoso e a fazer backups perenes. Mas os arquivos ficam maiores a cada ano e exigem HDs e dispositivos externos que quebram com frequência capitalista.

Só há duas memórias-arquivo: uma no cérebro, outra em dispositivos físicos e eletrônicos. Para a primeira, decoro sequências numéricas, letras de músicas e brinco com idiomas na Netflix. O segtredo de Jeremias Nascimento, por exemplo, é ouvir músicas do século 20. Os dispositivos eletrônicos entopem seu cérebro com informação desnecessária, mas podem ser úteis. Precisamos das duas memórias, mas como garantir a sobrevivência dos arquivos?

É aí que entra a Schirley e o Projeto Ostentação: estávamos na casa dela a falar sobre nossas viagens - sabiam que ela morou em Aruba? Num certo momento, Schirley diz com seu sotaque gaúcho jamais lapidado: "Mas Averyyyyy, você faz tantas viagens interessantes, por que não publica no Facebook?". "Schirley, isso é turismo-ostentação. Sou mochileiro e mochileiros detestam ser confundidos com turistas". Semanas depois dessa conversa, dou total razão à minha amiga.

Os programas de recuperação de dados (usei o Wondershare) não são perfeitos, mas ajudam muito. Depois de algumas horas, fotos apagadas há tempos, por acidente ou vontade própria, saltam na tela e oferecem novo significado à vida e à memória de longo prazo. Imagens que ficaram apenas na retina pulam na sua tela e trazem um mundo novo dentro de um velho mundo. Lembranças que serão usadas por algum tempo e depois, de mortos, vaporizadas na grande nuvem.

De agora em diante, usarei mais o blog e o Facebook para "upar" fotos e evitar novas perdas. Portanto, Timeline, preparai-vos para o Projeto Ostentação.

Post Scriptum: Sobre os programas de domingo, ainda me pergunto se o sujeito de chapeu-coco e óculos sem lentes veio de uma festa com Spike Lee e Russel Westbrook ou se ele não tem ideia de onde veio seu "personal style".

sábado, 31 de outubro de 2015

Antonio Vieira dizia coisas engraçadas, como "jazz é um monte de sons pequenininhos, separadinhos, que fazem sentido" ou "tu é socialista porque nasceu na Amazônia, desconhece escassez", entre outras observações lúcidas/bizarras sobre vida, religião, economia e o algo mais e era exatamente por esse motivo que conseguíamos manter aqueles diálogos notáveis entre liberalismo e socialismo, quando atribuía meu bem-estar a Adam Smith, e claro que pensei sobre isso no sétimo andar daquele hotel no estrangeiro, quando soube que ele havia morrido e parei estupefato diante da janela a pensar que trocaria sem pestanejar a vida de meu amigo pelas 150 vidas de jovens, crianças, velhos, animais e plantas da praça lá embaixo, sim, dezenas de vidas por uma injustamente retirada do palco de nossa única e solitária existência nesse planetinha, sabia o ateu Antônio, agora novamente poeira de estrelas, reintegrado à terra, de onde saímos bilhões de anos atrás nalguma forma primitiva e ordinária até redundar no ser humano e seus feitos extraordinários, seus equívocos letais, suas personalidades brilhantes, e uma vez morto, não pode ser trocado pelas vidas inocentes da praça, plano abortado e me assalta a conhecida sensação de não estar presente ao enterro de amigos, por perambular ou morar longe e por isso não vi mortos nem meu cunhado, nem o Mário, nem o Simões ou o Laucides, somente Feutmann e dias antes ou depois, Murilo e Zequinha, enterrados no mesmo horário em cemitérios diferentes, e todos se foram e tornaram salas mais tediosas, conversas menos densas, o ar menos envenenado por ideias malucas e minha geração acossada por um Brasil polarizado entre o coxinhismo e o setentismo pré-revolucionário, eterna vítima de auto-indulgência, insensível ao cheiro de podre que vem da televisão, ex-indústria cultural, hoje cultura bacteriológica, produtora de autômatos que recitam coisas do tipo "é isso mesmo, produção?" ou "concerteza", nessa inexplicável amálgama de niilismos yuppies, ruralistas, reacionários, religiosos, racistas, catequizadores, manipuladores e toda sorte de lunáticos dispostos a desinstalar o Iluminismo, jogar de vez tudo fora, quando sobrevém a certeza de que o tempo só é vencido pela fotografia, como a dos tênis na varanda em respeito à "imaculada brancura" do chão de minha sala, que Antônio criticava sob vieses nipônicos e escandinavos mas curtia o fato de não ser um piso xadrez, o que lhe obrigaria a caminhar em diagonal como um alucinado Bispo/Jack Nicholson, sem pisar nas duas cores, para no final disparar uma piada nova e fazer rir Yonara, que mencionou a passagem do aniversário dele e me faz lembrar de todas as nossas conversas sobre o tempo que passa: nosso tempo.

domingo, 18 de outubro de 2015

Listen like thieves

http://m.jb.com.br/pais/noticias/2015/10/17/nova-denuncia-acusa-odebrecht-de-pagar-r-138-milhoes-em-propina/?from_rss=None

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Os Educadores

Hoje é dia do professor. Uma profissão cuja retórica geral reputa como importante. Na Câmara dos Deputados houve vários pronunciamentos. Na mídia, muito dinheiro investido pelo governo em propagandas institucionais. Nas escolas e universidades, homenagens, salgadinhos, pequenos discursos de auto-estima, tapinhas nas costas... Mas o que significa realmente esta data? O Brasil acaba de passar pela maior greve da educação na história. Foram 140 dias com universidades sem aula. Professores de norte a sul protestaram contra as condições de trabalho. Exigimos valorização salarial de carreira estruturada. Fomos tratados com total indiferença pelo Ministério da Educação. Nossos atos em Brasília foram reprimidos pela polícia, que atacou com cacetetes e bombas de gás professores, professoras e estudantes. Enquanto isso, a sociedade assistia tranquilamente sua novela, seu futebolzinho, seu programinha de polícia onde pode concordar com apresentadores ignaros que os problemas sociais serão resolvidos com a redução da maioridade penal. Também teve tempo de avaliar nas poucas e deturpadas notícias sobre a greve que professores são irresponsáveis vagabundos sem- vergonha que prejudicam a nação. Preocupada com as ameaças de impitimam, a presidente ignorou o caos na educação para cuidar do próprio cargo. Em resumo, assim é tratada no Brasil a atividade mais respeitada no Japão. Que este Dia do Professor por aqui seja o primeiro em que esta profissão retome seu papel, recupere suas forças e resgate sua honra. Os educadores estão vivos.

sábado, 10 de outubro de 2015

Um som

(Finis Africae - Ask the dust)
Atendendo a tua desilusão
Atendendo a tua desilusão
Roubaram as cores do meu reino
Roseiras murcharam no jardim
As dores aumentam no meu peito
Teus olhos são tão cruéis pra mim
Povos esqueceram suas lendas
Fendas se abriram pelo chão
Flechas de fogo incendiaram tendas
Atendendo a tua desilusão
Monges abandonaram templos
O vento não sabe aonde ir
Pararam teus movimentos
Teus pés, já não pisam mais aqui
Teus pés, já não pisam mais aqui
Atendendo a tua desilusão
Atendendo a tua desilusão

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Bolsomita

http://www.msn.com/pt-br/noticias/nacional/bolsonaro-chama-refugiados-de-esc%C3%B3ria-do-mundo/ar-AAeCfze?li=AAaB4xI&ocid=mailsignoutmd

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Um texto de Eduardo Galeano

Barbie vai à guerra

Existe mais de um bilhão de Barbies. Só os chineses superam essa população tão enorme.

A mulher mais amada do mundo não poderia falhar. Na guerra do Bem, contra o Mal, Barbie se alistou, bateu continência e foi para a guerra do Iraque.

Chegou à frente de batalha vestindo fardas de terra, mar e ar, feitos sob medida, que o Pentágono examinou e aprovou.

Ela está acostumada a mudar de profissão, de penteado e de roupa. Também foi cantora, esportista, paleontóloga, dentista, astronauta, bailarina e sei lá mais o quê, e cada novo ofício implica um novo look e um novo vestuário completo, que todas as meninas do mundo estão obrigadas a comprar.

Em fevereiro de 2004, Barbie também quis mudar de par. Fazia quase meio século que estava ao lado de Ken, que não tem no corpo outra saliência além do nariz, quando foi seduzida por um surfista australiano que a convidou para cometer o pecado do plástico.

A empresa Mattel anunciou, oficialmente, a separação.

Foi uma catástrofe. As vendas desabaram. Barbie podia, e devia mudar de ocupação e de vestidos, mas não tinha o direito de dar mau exemplo.

Então a empresa Mattel anunciou, oficialmente, a reconciliação.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Bola ao cesto

Brasília - Finalmente veremos o brasileiro Marcelinho Huertas (ex-Barcelona) jogar na NBA. E finalmente, uma aquisição decente feita pelo Los Angeles Lakers. Na próxima temporada, haverá oito brasileiros no maior campeonato de basquete do mundo. Pena que o Brasil não valorize esse esporte e nossos atletas sejam obrigados a mostrar seu talento em quadras estrangeiras.

domingo, 30 de agosto de 2015

Da Plebe

Brasília - Hoje eles são Milton Santos, Eric Hobsbawn, Octavio Ianni, Edgar Morin, Florestan Fernandes, Karl Marx, Friederich Nietzsche e outros. Mas aos 15, 16 anos, minha formação política começa com duas bandas de Brasília: Legião Urbana e Plebe Rude. Meus primeiros líderes políticos, portanto, vêm do rock. Depois eu descobriria Jean-Paul Sartre, Bob Dylan etc. Mas tudo começou aqui, onde acabo se ver a Plebe Rude lançar seu primeiro CD (Nação Daltônica) em 2 milhões de anos, em show gratuito na Torre de TV.

sábado, 29 de agosto de 2015

Polícia para quem precisa

Brasília - "A presença ostensiva da polícia militar desde o início do ato, impedindo inclusive a entrada do carro de som e tensionando durante toda a manifestação, culminou em ação repressiva com lançamento de bombas e gás de pimenta e agressão corpórea a docentes e estudantes. Tais fatos revelam que este governo não hesita em recorrer à repressão policial contra a juventude e os trabalhadores que lutam contra as medidas econômicas que retiram direitos e precarizam os serviços públicos, notadamente, de saúde e educação. Foi bastante perceptível a disposição da categoria para a luta." 

(Trecho do Comunicado do ANDES-SN sobre os atos públicos em Brasília. Leia na íntegra aqui.) 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Europa

Brasília - Refugiados sírios cruzam a fronteira da Macedônia com a Grécia. Imagens chocantes. Fronteiras, cercas elétricas, muros gigantes, nada detém o caos originado na concentração de renda, na exploração e na expropriação dos indefesos. O mundo ferve.

Sobre Política

Brasília - Definitivamente não entendo o eleitorado de Roraima. Talvez queira ultrapassar o de São Paulo como o mais irresponsável do país. Não vai ser fácil barrar uma cidade que elege Titirica, Paulo Maluf, Netinho de Paula, Afanásio Jazadji, Celso Russomano e terá Zé Luís Datena como candidato a prefeito. Mas os roraimenses se esforçam: elegem pastores e mais pastores, apresentadores de 'pograma de puliça', semi-analfabetos (há os que reúnem essas três virtudes), parentes de políticos e outras figuras aberrantes. O que esses políticos têm em comum em seu favor chama-se TELEVISÃO. O povo elege qualquer idiota que aparece na tela achando que o idiota é quem está na tela.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sobre a greve

O Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) da UFRR reúne-se amanhã às 14 horas no prédio da Reitoria para deliberar a suspensão do calendário acadêmico, dez semanas depois de iniciada a greve dos docentes federais. Não há risco de ocupação, como ocorreu na UFPA. O Campus Paricarana estará esvaziado. Homens encapuzados, com máscaras e jatos de veneno atacarão sem piedade mosquitos que infernizaram alunos, professores, técnicos e comunidade nos últimos meses. O combate acontecerá em plenas férias e época de reprodução, no final das chuvas, sob os trovões de agosto. Até as aulas retornarem, novas gerações de mosquitos terão história e cosmogonias próprias. Famílias de insetos contarão como seus ancestrais foram exterminados por homens impiedosos e como se tornaram mais fortes, Monsanto e HSBC do entomundo. Dispostos a tornar exangue a comunidade acadêmica. Ninguém assistirá à grande batalha, tipo Pink Floyd em Pompeia. Isolados no único prédio a não ser borrifado, os conselheiros decidirão. Neste 2015, enquanto empolávamos nos criadouros/salas de aula, o governo que mais precarizou o ensino na-história-desse-país retirou R$ 12 bilhões da educação pública. Destinou R$ 5 bilhões para instituições de ensino superior privadas, alegando crédito estudantil. Milhares de jovens trabalhadores tornaram-se reféns do sistema financeiro e de uma formação precária numa só cajadada. Na TV, o ministro da Educação descreveu um país irreal e todos acreditaram..

Sobre a juventude

Os estudantes não deixaram de ser a vanguarda do pensamento, da liberdade e das artes para defender futilidades. Quem se perdeu foi a sociedade, auto-incapacitada para discernir educação, política, liberdades, moda, economia, música e cozinha sem a orientação da mídia. Transforma suas crianças em filhas da tela. Rouba revistas dos consultórios e os talheres da Varig (Varig?!) mas culpa os políticos pela corrupção arraigada. Quem se perdeu foram papai e mamãe, crianças. Quem se perdeu foi o jornalismo. Quem se perdeu foram nossos representantes. Os jovens não se perdem. Se encontram. E viram as coisas de cabeça pra baixo, sempre que querem.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Sabe aquele poema do Drummond?


Boa Vista - Renan amava José que amava Jader que amava Romero que amava aquele cara atrás dele que amava Henrique que amava Eduardo que amava Luís que amava Michel que amava Eunício, que não amava ninguém. Renan foi para os Estados Unidos com cartão institucional, José dominou o Amapá e Jader o Pará, Romero escapou de desastre, Eduardo cometeu suicídio eleitoral, Eunício continua a não amar ninguém e Michel casou-se com Marcela Tedeschi, que não tinha entrado na história.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A secretária de Educação de Roraima, Selma Mulinari, está neste momento no interior de três círculos concêntricos. O primeiro é seu gabinete de onde não sai desde as primeiras horas da manhã. Depois há um círculo com dezenas de policiais do grupo tático da PM, protegendo o prédio do lado de dentro dos portões. E, finalmente, do lado de fora, um círculo com professores, sindicalistas, movimentos sociais e estudantes indígenas indignados. Os professores da rede regular de ensino, iniciaram hoje uma greve, com 90 por cento de adesão e engrossaram as fileiras. Todos querem a cabeça da secretária, que é irmã da governadora Suely Campos. O ANDES-SN enviou representantes, que já prestaram seu apoio à causa dos professores indígenas em forma de moção e agora, pessoalmente, com membros do Comando Local de Greve. A greve é forte. A greve é multi-étnica. A greve é nacional. A greve é geral.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Dilma em fuga

Boa Vista - Neste momento, são apenas 32 graus à sombra. Mas a sensação térmica sob o toldo de lona facilmente ultrapassava os 40, quando a presidenta discursou aos povos. Havia movimentos sociais "casca grossa", como o MST, quietinho, quietinho. Havia indígenas em seus trajes, LGBTs em tons dourados aproveitando a alta luminosidade e um punhado de servidores da Educação, Justiça Federal e Previdência. O protesto quase não se ouviu. Defensores do governo, olhar misto de espanto e indignação, vaiaram. Pedir "Justiça e Educação" aqui, com esse calor, onde já se viu?! 

Os clientes do plano habitacional de maior sucesso na-história-desse-país exultavam. E havia a imprensa. E convidados VIPs, cujo critério de escolha é mistério. E finalmente o palco, onde os donos do poder dividam a mesa principal. Dois senadores e uma senadora eleitos por Roraima conversavam alegremente num evento quase privado, dado o esquema de segurança. Não fosse o Exército, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, seguranças oficiais e espiões em meio à turba suada, facilmente se confundiria com espetáculo de música. Tipo Wesley Safadão ao vivo no Mané Garrincha. 

Antes da presidenta, houve falas. A prefeita foi simpática e gentil. Same as it ever was. A governadora exigiu menos terras indígenas e áreas de proteção ambiental. Same as it ever was. Um ministro/pastor perguntava à plateia quem pagava aluguel acima de 500 reais. E 400 reais?! E 300?! E 200?? E 100, quem pagava mais de 100 reais de aluguel, minha gente? Braços suados em riste. Assessores políticos de bracos erguidos também. Leni Riefenstahl se refestelaria. Leques com a logo do Município foram distribuídos. Ventos a 4km/h. A presidenta falou até as 13h, abatida pelo calor. Disse que já resistiu a muitas dificuldades e não admite que haja desestabilização política. Só econômica. E só um pouco. O Brasil é forte. E já esteve pior. Quando a oposição foi governo, por exemplo... 

Depois entrou num helicóptero e se mandou sem falar com jornalistas. Parecia ter adivinhado que entre microfones, filmadoras e bloquinhos de papel havia um não-credenciado que cruzou cada uma das barreiras de acesso, sem crachá, como o alien de Gilberto Gil. Ou talvez o assessor tenha notado a camiseta vermelha do Comando Nacional de Greve do ANDES num jornalista que por acaso é professor federal em greve, portanto gente da pior espécie. Cinejornalistas frustrados, fotógrafos suados e decepção geral para quem entrevistaria a primeira celebridade. Repórteres maquiadas e lívidas, perderam a paciência e silenciosamente decidiram não votar em Dilma na próxima eleição.

domingo, 26 de julho de 2015

Eduardo Galeano

Não digo adeus (Eduardo Galeano)
Em 1872, por ordem do presidente do Equador, Manuela León foi fuzilada. Em sua presença, o presidente chamou Manuela de Manuel, para não deixar registro de que um cavalheiro como ele estava mandando uma mulher para o paredão, embora fosse uma índia bruta.
Manuela havia alvoroçado terras e povoados e havia alçado a indiada contra o pagamento de tributos e contra o trabalho servil. E como se tudo isso fosse pouco, havia cometido a insolência de desafiar para um duelo o tenente Vallejo, oficial do Governo, diante dos olhos atônitos dos soldados, e em campo aberto a espada dele tinha sido humilhada pela lança dela.
Quando este último dia chegou, Manuela enfrentou o pelotão de fuzilamento sem venda nos olhos. E perguntada se tinha algo a dizer, respondeu, em sua língua:
- Manapi (Nada)

sábado, 25 de julho de 2015

Eduardo Galeano

Faz pouco mais três meses, deixou-nos Eduardo Galeano, o mestre uruguaio que dedicou a vida a retratar o continente latino-americano sob uma perspectiva histórico-humanista como poucos conseguiram fazer. Texto econômico, jornalismo de profundidade, maestria acadêmica lhe caracterizavam. Era capaz de falar sobre qualquer coisa, desde que tivesse importância suficiente para desestabilizar os inertes e deleitar seus muitos fãs com análises precisas sobre sociedade, consumo, política, história. Seu legado permanece. Poucos seres humanos reuniram tantas qualidades ignoradas. Não troco minha vida por nenhuma outra: repleta de aventuras, viagens, paisagens e amigos que me fazem vivo e relevante. Trabalho com a palavra e não conseguiria fazer outra coisa. Tenho poucos desejos, porque estes são sofrimento. Mas um dia espero escrever como Galeano.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Brasília - Indignado com a morte de seu Rafael, que meu pai conheceu há 50 anos na fronteira norte, um vindo do maranhão, outro do Rio Grande do Norte. Atuaram na mineração artesanal na Venezuela e na Guiana, instalaram-se no bairro São Francisco em Boa Vista. Quando sua mulher deu sinais de que iria entrar em trabalho de parto, fretou um pequeno avião em Ourinduque e foi até Georgetown, Guyana, onde nasceu meu amigo Rubem Leite, que conheço de toda a vida. Rubinho é pai do Lucas, que é amigo da Nagisa, minha filha; assim como meu filho Liu é amigo do seu filho Mateus. Hoje, nossas netas Jasmim e Ísis já são amiguinhas. Famílias amigas há quatro gerações. Que os criminosos não fiquem impunes. Que a Polícia Civil faça bem seu trabalho e entregue os assassinos deste homem forte e trabalhador que escolheu viver perto da natureza.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Pátria Educadora

Brasília - Permaneço como delegado no Comando Nacional de Greve pela Seção Sindical Dos Docentes Da Ufrr até 1 de agosto. Mandato confiado por companheiros de todo o Brasil que consideraram as peculiaridades regionais e distâncias continentais que caracterizam nosso imenso país. Represento, com responsabilidade, 571 professores efetivos e um sem-número de substitutos da UFRR. Minha ideologia é bem limitada: educação, política e liberdades individuais. Por isso o Andes-SN não é apenas meu sindicato. É meu time de futebol e meu partido político. Amanhã estaremos ao lado de 5 mil servidores da União numa grande marcha em Brasília. Por uma pátria que faça jus ao título de "Educadora".

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Cinema

"Por que nos sentávamos tão perto? Provavelmente porque queríamos ser os primeiros a receber as imagens que chegavam, quando elas estavam ainda novas, ainda frescas, antes que saltassem para as fileiras seguintes. Antes que se espalhassem de fila em fila, de espectador em espectador, até que se esgotassem, em segunda mão, do tamanho de um selo e voltassem para a cabine do projetista."
Os pensamentos de Matthew (Michael Pitt) foram escritos por Gilbert Adair com base num provável estado de graça. Mas ao fazer a câmera despencar da Torre Eiffel ao som de 3rd stone from the sun (Jimi Hendrix), Bernardo Bertolucci mostra que seu maior barato é desafiar a literatura.