sexta-feira, 30 de janeiro de 2004

Na tela
Dogville é a fábula americana, por excelência, provando que à exceção de Noam Chomsky, Susan Sontag e Michael Moore, os Estados Unidos ainda precisam do olhar estrangeiro para se enxergar. Falta tirar a venda.

O novo filme de Von Trier é mais "profissional" que obras anteriores, embebidas de Dogma 95. Novamente a mulher que sofre (Ondas do Destino, Medéia, Dançando no Escuro...) protagoniza o trabalho do cineasta dinamarquês. Menos manifesto feminista que realismo. Três horas de filme depois, a sensação é de que já estive em Dogville.

sábado, 24 de janeiro de 2004

Sobre o Ministério da Educação
Poucas pessoas entendem de educação neste País como Cristovam Buarque, cujos projetos foram copiados no governo passado e implementados no atual. É dele o projeto Bolsa-Escola e de erradicação do analfabetismo. É dele o cálculo do número de analfabetos a partir dos cinco anos (idade em que famílias de renda razoável alfabetizam suas crianças), sem contar uma série de livros, ensaios e projetos ligados à educação – cujas deficiências históricas influenciam diretamente na má distribuição de renda. Fico perplexo (não sou o único) com a demissão por telefone de uma pessoa reconhecidamente competente para favorecer o fisiologismo político. Parece Roraima. Parece Washington. A desculpa de que “a notícia se espalhou” é absurda. Melhor seria o silêncio.

Cristovam Buarque é doutor em Economia pela Sorbonne, foi reitor da UnB, governador do Distrito Federal e é consultor das Nações Unidas. Tarso Genro escreveu vários livros sobre política, marxismo e Direito e foi prefeito de Porto Alegre. Espero que faça um bom trabalho, mas dizer que esse é o seu maior desafio político-administrativo não ajuda. Educação é menos administrar que amar.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2004

Na vitrola
Arrigo Barnabé - Clara Crocodilo
Fito Paez - Naturaleza Sangre

segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

Leio
Mar sem fim – Amyr Klink

Li A Festa, de Ivan Ângelo
A incrível e triste história de uma geração derrotada pela resistência e pela inércia, pela ação e pela omissão, tudo ao mesmo tempo.

Ivan Ângelo é hábil redator, artífice de obra em construção, nem tanto a Joyce nem tanto a Woolf. As descrições são econômicas, as palavras precisas, a narrativa fragmentária. Recortes do caos que paralisou os grandes centros urbanos durante a virada da década de 1960 para 1970, quando o “país do futuro” tentava avançar movido pelas mesmas forças conservadoras que ensejaram ditaduras passadas. Em meio a tudo isso, retirantes esfomeados, déspotas esclarecidos, DOPS, jornalistas, cocaína, socialites e personagens de um Brasil que não deu certo numa obra atual, passados quase 30 anos do seu lançamento.

A estrutura experimental e a metalinguagem fazem de A festa um livro especial para leitores de primeira grandeza e escritores bloqueados.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2004

Esse jogo é 1 a 1
Os chilenos (puf, puf) jogaram bem, aproveitaram as oportunidades (puf) e foram felizes nas finalizações. Agora é correr atrás do prejuízo (puf, puf), esfriar a cabeça e pensar no nosso objetivo (puf, puf) que é a conquista de uma vaga nas Olimpíadas e ir pra (puf) Atenas.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2004

Vintage
- Diz que é vintage.
- É?
- É.

(As consumidoras)



- Diz que é vintage.
- É?
- É.

(Os publicitários)



- Diz que é, Vintage.
- É?
- É.

(O Vintage)

sábado, 10 de janeiro de 2004

Este blog está em obras
Prossegue a investigação sobre o misterioso desaparecimento do template.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2004

Leio
A festa – Ivan Ângelo

Li O homem duplicado, de José Saramago
O que aconteceria se você encontrasse alguém exatamente igual a... você? Noutra de suas premissas célebres (e se todos ficassem cegos?), José Saramago leva o leitor a uma estranha viagem entre nomes (Tertuliano Máximo Afonso detesta o próprio nome) (Antônio Claro é o verdadeiro nome do ator Daniel Santa-Clara) (o próprio autor chamar-se-ia José Sousa, não tivesse o oficial de registros acrescentado o apelido da família - nome da erva daninha da região do Ribatejo), relacionamentos, despersonalização e deslizes morais.

Aos que vêm o fantasma de Kafka a cada livro seu, o escritor português responde que "existem estórias Kafkianas desde antes de Kafka". E, sim, este senhor de quase 80 anos segue a linha direta dos que romperam com as estruturas formais do romance. Por isso, como artista do século 21, dá-se ao direito de beber na fonte da grande arte coletiva. E sampleia histórias, não autores. Saramago é bricolage.

Saramago, todos sabem, é fã da cantora norte-americana Edie Brickell, e teve a idéia de escrever o livro a partir da letra de The Wheel:


Somewhere there's somebody who looks just like you do.
Acts just like you do - feels the same way.
Somewhere there's a person in a far away place
with a different name and a face that looks like you


Não, nada disso. O escritor gosta de HQs da Marvel e da antológica série “O que aconteceria se...”, que entre outras proezas ressuscitou Fu-Manchu e libertou o Surfista Prateado da prisão invisível imposta por Galactus. Doutra feita, levou Marcelo Rubens Paiva (Blecaute) a congelar o tempo numa São Paulo em decomposição.

Não, não. Saramago gosta mesmo é de Roberto Carlos. A inspiração vem, portanto, da letra de O sósia, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos:

Tudo começou quando um certo dia
Eu liguei pro broto que há tempos eu não via
E o que ela disse me deixou zangado
Deixe de tolice, já tenho namorado
Fui a casa dela e lhe falei então
Para essa história quero explicação
Quando olhei pro lado, eu perdi a fala
Descobri um cara que tinha a minha cara
E até seu nome era igual ao meu
Um era demais eu sei não era eu
E na confusão meu broto desmaiou


O insight que determina a obra pouco interessa, nesses casos. Os seres humanos, em algum momento da vida, pensam na existência de um clone seu andando por aí. Um ser fisicamente idêntico e não as múltiplas personalidades plasmadas por nossos pensamentos contraditórios - como nas hilárias conversas entre Tertuliano Máximo Afonso e o senso comum.

O livro leva o leitor a refletir sobre o indivíduo não mais sob a chancela da filosofia, mas de uma metafísica de ateu, que não exige maiores explicações.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2004

Brasil, ano 504
A política econômica beneficiou os nichos de sempre e não merece maiores elogios. Diferente é o caso da política externa, em que o Brasil foi primoroso. A diplomacia foi o que tivemos de melhor no primeiro ano do governo Lula. A visita a nações belicosas (incluindo os Estados Unidos) e mercados em expansão atestam.

A melhor notícia do ano novo é o fichamento de norte-americanos nos aeroportos brasileiros. Nada contra os caras. Mas o princípio de reciprocidade diplomática alegado pelo juiz Julier Sebastião da Silva - o mesmo que mandou prender o chefe do crime organizado em Mato Grosso, João Arcanjo Ribeiro -, admitamos, é genial. Um avanço no combate à biopirataria.

sábado, 3 de janeiro de 2004

Bola ao cesto
Hoje tem basquete da NBA na TV aberta.

Coube à Rede TV assumir a transmissão dos jogos do melhor basquete do mundo, suprindo a lacuna da ESPN no fim de semana.

O primeiro jogo será Detroit Pistons x Golden State Warriors. Em seguida, Atlanta Hawks x Denver Nuggets.

O brasileiro Nenê defende os Nuggets e tem feito 11,5 pontos por partida.

Update às 0h: Que jogo!

Satanistas são clientes insatisfeitos.